Crônica de uma noite de verão.

Três e meia da manhã. Ambos não conseguiam dormir. Ele pela insônia. Ela porque dormiu assistindo Alien a Ressureição. Ambos deitados, luz apagada. Sem dúvida alguma aquela noite foi a mais quente do ano até aquela semana. E como é de se esperar de uma madrugada quente de verão, naquele quarto, além do casal, havia outra mulher no quarto. Não mulher propriamente dita, mas uma fêmea. Sim um pernilongo fêmea. Se você se pergunta como eu sabia que era um pernilongo fêmea, é muito simples – as fêmeas que fazem o Bzzz.

E ela deixava bem claro que era fêmea. Cantarolava pelo quarto. Eu também sabia porque ela cantava. Precisava procriar. Era necessária a proliferação da espécie e o canto era o jeito de chamar a atenção do macho. Algo como: Ei, estou aqui garotão. Cheia de amor para dar. E é aí que eu percebi que não importa a espécie, mulher sempre fala demais. Ela passeava pelo quarto, por nossos ouvidos. O impossível era saber a distância que ela estava de praticamente entrar na minha cabeça. Bocejei com medo. Tive medo de que ela estivesse perto demais, talvez o suficiente pra entrar na minha boca. Daí entendi o porque de colocar a mão na frente quando se boceja. Não é por educação. É por precaução. Bzzz. Eu fico imaginando como os vegetarianos se comportam nessa situação. Será que eles pensam Go Vegan? Não coma nada que já foi vivo antes. Bzz.

Tenho certeza que nem mesmo Gandhi, Dalai Lama, Madre Tereza, Sandy aguentariam uma pernilonga atrevida. Pena de morte pra elas todas, e pra eles por gostarem de pernilongas falantes. Bzz.

Bzz. A minha vontade era de gritar pra ela. Com tanto lugar em casa, você realmente acha que vai achar o seu mosquitinho por aqui? Se ela lê pensamentos deve ter ficado brava por rebaixar o pernilongo dela pra um mero mosquito. A noite foi longa. Então eu alternava entre tentar acabar com a vida desse bicho que pesa 0,001% do meu peso e cobrir os ouvidos com o lençol numa tentativa falha de acreditar que não ouviria o maldito zumbido de novo.

Eu te odeio. Bzz. Eu quero dormir. Bzz. Prometi acordar cedo amanhã. Me dá um tempo caramba. Olha.. Se você ficar desesperada atrás de um pernilongo, é capaz de não achar nada. Bzzz. É assim pra nós humanos.. Por que não seria pra você? (Ela me dava urghs.)

Desisto. Não quero saber. Vou me enrolar no meu casulo de lençol… Bzz…

Mas sabe de uma coisa. Pernilongos vivem pouco. Ela só vai ter mais algumas horas de cantarolagem. Eu tenho dó dela. Ela não me incomoda mais. Algumas dezenas de minutos depois, o céu já estava claro, e a luz entrava pela frestinha da janela do quarto. E o silêncio dominava tudo. Eu podia senti-la de vez em quando encostando no meu rosto. Já não via mais como um problema.. Ela estava silenciosa, e eu tinha dó dela.

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