Universos Paralelos

Já te contei sobre a história dos Universos Paralelos? Não? É assim:

Dizem que tudo que você deixou de fazer nesse mundo em que vivemos por qualquer motivo que seja, por medo, por pressa, por pura preguiça, acontece num Universo paralelo igualzinho o nosso. Nada extravagante do tipo: No meu UP1 eu estou sentada em uma espreguiçadeira nas Bahamas tomando minha vodka com suco de laranja enquanto espero minha porção de camarões e lagosta Pinchy ficarem prontos. São coisas simples.
Aquele oi que você não retribuiu, aquele cartão que você decidiu não deixar na mesa daquele cara que você sabia que estava te olhando enquanto devorava seus waffles com cobertura de morango, aquele beijo que era pra ser o último, nesse Universo paralelo é só mais um. Um beijo com a intensidade de último, mas com amor do primeiro, ou o tesão do terceiro.
Tem um UP que começa assim:
Alice acorda, olha pro relógio, decide dormir mais dez minutos, acaba dormindo vinte. Levanta apressada, veste seus jeans, sua camiseta branca favorita e seu salto. Quase esquece o colar com a plaquinha retangular que ela tanto adora. Dá “proteção”. Pega as chaves do carro. Um Camaro 69 que consome mais alcool que ela em um dia. Duas portas, confortável e grande o suficiente pra tirar um cochilo na estrada quando dá vontade. Sai voando da garagem do prédio, pega a Avenida no sentido contrário que deveria ir pra cortar caminho. Ela se atrasou, sabe que o trânsito tá “fudido” por aqueles lados. Para antes pra comprar café pra levar pro escritório. Um pra Rafaela, o do Maurício é sem açúcar e pra mim nada de café. Ela sabe que eu não gosto. Resolve trazer uma coca. Na saída, prende o salto na calçada e perde bons dois minutos pra tirá-lo de lá, corre até o carro, estaciona duas ruas antes. Encontrou a vaga mais apertada do mundo pro Camaro dela, paciência, se baterem o seguro paga. Ia subir as escadas, decidiu pegar o elevador que milagrosamente estava vazio. – “É, eu tô atrasada né..” Chega na reunião, toma uma bronca de leve mas é logo perdoada pelos cafés que trouxe. Menina esperta, não dá ponto sem nó. Trabalha, conversa, sente saudades de alguém, recebe uma mensagem. – Vamos jantar fora hoje, você escolhe o restaurante. Te amo. – Vai pra casa, se troca, ele chega, cansado mas com o maior sorriso do mundo estampado no rosto. Ele liga o som, eles cantam e vão jantar. Nada de muito interessante nesse dia em particular.
No mundo real dessa história, as coisas são diferentes:
Alice acorda, decide que tem que chegar cedo no trabalho, levanta correndo, come uma torrada, veste sua calça jeans, sua camiseta branca que tem uma manchinha do lado esquerdo embaixo. Ela não sabe dessa manchinha. Nem reparou que a camiseta favorita dela estava logo do lado. Esquece o colar de plaquinha da tal da “proteção”. Pega a chave do carro e vai sentido escritório no caminho convencional, chato de sempre. Liga o som. Nada de som baixo, ela precisa acordar, não vai dar tempo de comprar café hoje. O trânsito tá mais ou menos. O celular toca, ela atende. No meio da conversa o celular escapa da orelha, cai no chão. Do outro lado da Avenida, o motorista do caminhão não percebe o carro parado perto da faixa. Descuido da motorista, descuido dele. Não vê que o sinal está amarelo, avança. Ela com pressa, acelera no verde. Eles batem. Alice recebe uma mensagem no celular. – Vamos jantar fora hoje, você escolhe o restaurante. Te amo. – Ela não vai responder. Ele não vai ligar o som e hoje, eles não vão cantar juntos.
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Master Chef Relationships

Eu um dia acreditei que sabia de tudo sobre o amor e relacionamentos.

Achava que entendia de amores platônicos, não correspondidos, mal correspondidos e até aqueles em que quem não corresponde sou eu. Eu também achava que já tinha amado e sido amada reciprocamente, mas o fato de eu achar que sei de tudo sobre algo não faz de fato com que eu saiba de tudo sobre algo. Ou então que o que eu ache que eu sei seja uma verdade ou padrão.

Então nessa onda de me sentir chef em relacionamentos eu vivi minha vida. E um dia me encontrei. E foi nesse dia que me perdi.

A vida tinha me dado uma oportunidade de escolher pratos maravilhosos, sensações únicas e aromas inigualáveis. Todos eles saídos da minha cozinha. A mistura dos temperos, o sabor que tudo tinha. Tão gostoso. Tão apimentado. Tão bem disposto num prato importado. Foi quando, do nada, (ou talvez não tão do nada assim) as coisas começaram a mudar.

Como um chef que, sem querer desanda a massa e não consegue mais acertar a mão, tudo que eu sentia foi desandando. Como num bolo cheio de chantilly num dia quente de verão. Nada mais era certo e toda medida parecia errada. A pressa deixava tudo cru e a falta de atenção tudo queimado.

E assim eu tinha perdido toda receita do bolo. Desde a massa até a cobertura. O recheio? Esquece. Faltou o principal ingrediente pra dar a liga.

Quando um chef perde a inspiração, ele perde parte da vontade de viver. Quando seu maior prazer é agradar alguém e esse prazer é tirado de você, seja pelo destino, seja pela incompetência, seja pelo caralho, é muito difícil voltar a sentir aquele desejo de picar, cortar e sentir o aroma, ver a fumacinha que os pratos quentes soltam. Aos poucos as coisas perdem o sabor. Aos poucos tudo se torna amargo, sem sal, sem açúcar, sem tempero.

Eu achava que como chef já tinha queimado demais meus dedos em panelas. E achava que como um ser humano que (diz que) sente, já tinha calejado esse coração cansado.

Então eles dizem: parece que o jogo virou, não é mesmo?

Parece que sim.

heartmeasuringspoon

Look do dia

Dá vontade de usar só cinza. De usar só preto. Viver no luto, como se a roupa mostrasse o que a alma tenta esconder.

Dá vontade de cantar pra você ouvir, pra você chorar, pra você não esquecer. Eu não vou esquecer.

E aí eu me vejo entre um cigarro e outro, bebendo um gole e outro. E tudo conecta a você. A teoria dos seis graus de aproximação. É como se toda conversa me remetesse a tudo que a gente nunca viveu. Como se cada estrofe contasse um verso de um poema que nunca aconteceu.

E aí eu me vejo largando tudo pra achar que eu vou encontrar com você.

Essa terça? Não dá. Acho que tenho um compromisso.

Ih, esse final de semana? Não sei não. Tô esperando um convite.

A disponibilidade me fez vítima. Me fez dependente. Te fez vilão.

Eu não vejo meus amigos. Eu não vejo outras pessoas. Eu só vejo você.

Hoje eu saio de preto, como se minhas roupas mostrassem o que a alma tenta esconder.

Mas a real mesmo é que é só uma calça e uma camiseta que não significam nada.

Camiseta preta. Igual a que você me emprestou aquele dia….

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Um curta metragem sem reprise

Eu nunca te prometi nada.

Na verdade nem tinha o que prometer. Porque a gente sempre deixava tudo pra amanhã. we will never die

Mas quando você se foi, algo ficou. Um sentimento de culpa por ter de dado as costas na sua última tentativa de aproximação – não lembro nem porque a gente tinha brigado. Algum motivo besta, depois da viagem pra Santos. Por ter achado que a vida era maior e longa demais e que eu não tinha que te perdoar ou voltar a falar com você. Burra eu. we will never die

Oito anos se passaram. Oito anos. Nesse tempo construí uma vida pra mim. “Construí”. Eu não tenho nada. E provavelmente nunca vou ter. Mas eu fui atrás. Eu corri. Eu segui em frente. Todos seguimos. Era preciso. E nesse meio tempo me disseram que eu era parecida com você. E nesse meio tempo não encontrei ninguém que chegasse igual, perto, ou próximo de você. we will never die

E nesses oito anos você se tornou um pouco mais difícil de lembrar. Não por você. Mas pela memória. As mais marcantes nunca se vão. Às vezes se confundem datas, fatos, passos. Normal. Tantos dias se passaram desde então. E mesmo sendo difícil de se lembrar, nunca vai ser possível esquecer você. we will never die

Quando você se foi, você deixou muita coisa. Você sem querer aproximou amigos e fez com que a gente percebesse que a vida é uma só mesmo. Que nossos instintos são fundamentais. Que independente de qualquer coisa, tem que curtir muito a vida. Tem que ser muito feliz. maybe we’ll die someday

Hoje me resta pouco de você. Mas tem tanto de você em mim. E nas músicas, e nos filmes. Sua vida foi de cinema, do começo ao fim.  Dos 2 meses aos 20 sempre rodeada de ação, de suspense, de amores não correspondidos e loucuras de um filme adolescente onde tudo dá quase certo no final. Um curta metragem sem direito de reprise. I’ll die someday

Eu espero que eu esteja honrando de alguma maneira tudo que você deixou quando se foi.

Você se foi. Mas algo definitivamente ficou.

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Síndrome de Estocolmo e os motivos pelos quais eu não tenho fé

Eu ando na rua parecendo um soldado. Com os ombros largos e um bico na boca, são poucos os casos em que homens chegam a mexer comigo. Eu acho que eu boto medo. Essa atitude de andar sempre ereta eu copiei de policiais.

Eu sou tipo uma copycat bem safada. Um camaleão meio esquisito, que não se camufla em nada com esse tanto de rabisco.

Aprendi também a sempre ficar de costas para as paredes dos vagões no metrô. Assim, em casos de emergência (incluindo aqui apocalipses zumbi) você consegue enxergar toda a situação e decidir o que fazer.

Essa mania de querer controlar situações me leva a contar aqui o motivo de eu não ter fé.

Pra ter fé você precisa acreditar. Ou esperar que algo seja verdade (ou mentira), ou que aconteça (ou não) algo pra você ou outras pessoas. Ter fé é esgotar todas as suas forças e desejos e anseios em algo que pode ou não acontecer. E é esse pode que acaba comigo. Ter fé é ter esperança. É esperar. E eu não sei esperar.

A vida inteira eu acreditei que as coisas aconteciam por um motivo. Por muitas vezes, na esperança (tá vendo, ela de novo…) de encontrar uma explicação, eu colocava a culpa nas Moiras. Acontece que assim como a fé, elas não existem. E não decidem nada.

Tantos sentimentos em conflito e tantas convicções contraditórias. O existencialismo que espera, o hedonismo que sente culpa, a liberdade que prende.

Um dia eu acreditei que as coisas aconteciam por um motivo. Um dia eu deixei minha guarda baixa.

Um dia. Uma noite. Um nada.

E assim o raptor conquista a simpatia da apática senhorita, que não quer se fazer de vítima.

E é por isso que eu não (mais) acredito.