Porque eu amo cozinhar

Eu não lembro que idade tinha quando resolvi me meter na cozinha pela primeira vez, mas lembro com clareza, como se pudesse me ver de outro plano, como nas novelas, quando um personagem lembra de uma cena. Ele se lembra dessa cena do ângulo da câmera, e nunca do seu próprio ponto de vista. Então, eu consigo lembrar com clareza o momento em que a colher de pau que eu tinha deixado descansar no cabo da frigideira cheia de açúcar derretento encontrou com a minha mão desajeitada e girou, como uma malabarista do melhor circo da cidade (como se na minha cidade tivesse muitos circos) e pousou com delicadeza e firmeza sobre meu joelho esquerdo. Num reflexo muito rápido minha única reação foi puxar a colher e ver os picos de açúcar já duros formados na minha perna. Tão lindo e tão doloroso. Lembro também de pegar aquele pano úmido meio velho e provavelmente sujo que fica na borda da pia e apertar contra minha perna enquanto eu gritava desesperada pra minha mãe vir me socorrer.

Que conste nos autos que fui avisada pela madre superiora que eu não deveria fazer açúcar derretido sozinha, que ela logo faria, assim que acabasse o filme que ela estava assistindo. Minha pressa pra viver sempre foi grande demais. A de doce também.

Essa primeira experiência deveria ter sido o suficiente pra me afastar da cozinha, mas anos depois, tendo uma mãe e uma avó excelentes cozinheiras fica difícil se manter longe de lá. Eu posso lembrar com riqueza de detalhes quantas vezes passamos finais de semana e até madrugadas ajudando na produção de bolos, pães, tortas e sobremesas para ajudar na renda da casa. Ou então festas de fim de ano e aniversários. Minha mãe sempre foi a responsável pelos bolos. De todos os vinte e poucos membros da família.

Se eu contar pra um psicólogo ele vai dizer que aí tem coisa, mas nesses momentos eu me lembro de toda a família reunida, da algazarra, dos gritos desesperados e das ordens da comandante Sandra que só queria que tudo fosse feito logo e da melhor maneira e que não faltasse nada pra gente. Papai tentava ajudar, mas a especialidade dele sempre foi sucrilhos com umas cinco colheres de açúcar, leite e um minuto e meio no microondas.

Me lembro de ir pra casa da minha tia que tinha uma coleção incrível de livros e enciclopédias e alguns livros de culinária e meu sonho sempre foi fazer um bolo xadrez.

O do livro era mais bonito que esse do Google

Então, com tanta influência boa, decidi voltar a me arriscar na cozinha, agora com 12 anos, pro aniversário de casamento de 13 anos dos meus pais. Fiz um prato único, incrível e espetacular: macarrão pene com caldo de feijão e milho em conservas.

Meus pais, em seu instinto mais do que imediato de salvar a cria da desgraça total disseram que o prato estava maravilhoso. Só descobri, claro, anos depois que se eles pudessem eles nunca teriam comido, porque né, macarrão, feijão e milho. Sem “tompero”.

Esse momento na verdade foi crucial na minha vida, porque se eu tivesse ouvido deles que aquele era o pior prato da vida deles, talvez hoje eu não teria tanto amor e paixão pelo que faço e faça (ou ao menos ache que faça) bem.

A partir desse prato cada vez que via alguém cozinhando perguntava algo, ou então revirava os velhos livros em casa, tentava receitas de microondas e fazia o verdadeiro caos na cozinha de casa, que cabe facilmente 5 pessoas trabalhando juntas e quase que em harmonia. E com isso fui aprendendo, aprimorando e até mesmo criando minhas próprias receitas, baseada em coisas que acredito que combinem (menos feijão e milho com macarrão) mas o principal desse texto não é me vangloriar das minhas habilidades culinárias. É dizer que eu faço isso com paixão e por paixão. Que nem sempre posso acertar, afinal, o que sou eu, se não mais que uma copycat de receitas alheias sem treinamento algum e que até hoje tem dificuldade de cortar cebola em fatias fininhas? Bom, elas saem, mas geralmente estrago uma cebola antes de achar o corte certo, não importa quantas cebolas eu corte na vida.

Marina recheando as batatinhas no melhor estilo Pinterest

Cozinhar pra mim é juntar os amigos e queimar os dedos, fazer um cortezinho ocasional e no final olhar na cara de cada um e ver um sorriso, reparar naquele hmmm que eles soltam quando comeram algo que foi uma explosão de sabores na boca deles.

Eu não entro na cozinha de mal humor. E só reparei isso no ano passado, depois de meses sem fazer um prato, sem ter vontade de pegar uma carne na mão e flambá-la no Jack, ou então fazer aquele purê cheio de queijo, ou uma parmegiana com molho feito em casa, hmm, molho feito em casa. Fiz esses dias, queria fazer mais. Uma panela dessas de merenda escolar, todinha de molho de tomate.

Cozinhar, pra mim é dar o meu melhor e pensar em cada detalhe e curtir cada momento que eu fico esquentando a barriga, abrindo uma massa, ralando queijos ou engrossando molhos e se um dia eu já cozinhei pra você, saiba que fiz isso com o maior orgulho e vontade e eu espero que você não me decepcione.

Saudades mansão. Saudades pratos maravilhosos. Saudades amigos.

Se algum dia eu já te chamei pra cozinhar ou comer algo e por algum motivo na vida isso ainda não aconteceu, tá esperando o que pra gente juntar esse amor e jogar conversa fora com bons drinks?

Volta pra mim?

Eu não passo mais tanto tempo largada na cama.

Eu não passo porque sozinha não tem graça.

A cama vazia dá saudade. A cama vazia dá vontade. Elas se misturam. Elas me enganam.

Eu também já não passo mais tanto tempo procurando outras diversões. Elas não me divertem.

É como se tudo fosse o oposto do que eu realmente queria que fosse. É como se nada mais fizesse sentido.

Eu ainda posso me lembrar de quando prometi, não muito tempo atrás, pra mim mesma, que não me deixaria iludir novamente. Que não teria tempo, cabeça ou coragem pra isso.

Porque é preciso coragem pra se apaixonar. Coragem pra remendar todas as partes de um coração destruído e entregar pra outro ser humano segurar. É se expor, de um jeito que nenhum nude que você manda, te expõe.

Quando a gente acaba se machucando demais, a gente acaba se proibindo de sentir o que já foi sentido uma vez, com medo de que tudo, hora ou outra, eventualmente, vá pelos ares.

Mas eu me deixo levar. Deixo me levar porque é bom. Deixo que você me leve e me pese, e me use. E eu te uso. E a gente se abusa. E é tudo tão bom, sempre, que nem parece que semana que vem tudo volta ao normal e você quase não se lembra de nada do que eu disse. Acho que são muitas histórias paralelas pra acompanhar.

E pensar que me prometi. De pés juntos e cabeça erguida, com a certeza matemática, de que não me deixaria cair nessa mesma armadilha de novo. Mas eu tô aqui, sem armadura, sem defesa, escrevendo como você me dá vontade. Como sua ausência dá saudade. Como eu tenho medo de não ser bem assim e como eu não sei mais lidar com isso.

Então eu queria que você me dissesse, mesmo que nunca leia esse texto. Eu queria saber o que é que você sente. Se dá frio na barriga, se dá aquela falta de ar e aquele risinho de canto de boca que diz: olha, tem mensagem. Aquela sensação angustiante e deliciosa de: tá chegando. Tem mais. Tem muito mais. Aquela vontade de perguntar, de coração aberto e palavras cheias de suor e respiração atrapalhada: também é tão bom assim pra você, como é pra mim? Elas fazem melhor? Elas são mais legais? Elas são mais atraentes?

É mais provável que tudo não passe de mais uma apaixonada aventura, mas tudo bem se for assim também. Acho que posso conviver com isso, enquanto procuro de novo peças, pedaços, vasos e artérias, tudo aquilo que demorei meses pra colar de volta num lugar e te presentear. Você não vai ficar, eu sei disso. Mas dessa vez minha promessa fica. E meu coração também.

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